Gravar som em cidade é uma negociação permanente com o caos. Salvador, onde vivo e gravo, é generosa em identidade sonora e implacável em ruído: trânsito, obra, som de vizinho, tudo ao mesmo tempo. Este guia junta o que aprendi capturando material urbano para documentário.
Equipamento que cabe na mochila
Para trabalho de campo urbano, portabilidade vence especificação. Um gravador portátil de boa qualidade com microfones embutidos em X/Y resolve a maior parte das ambiências, e um shotgun compacto com windshield entra quando preciso isolar uma fonte. Fones fechados são inegociáveis: o que importa é o que o microfone ouve, não o que o meu ouvido otimista acha que está captando.
Horário é metade da captação
O mesmo ponto da cidade rende materiais completamente diferentes às 6h, às 14h e às 23h. Para ambiências limpas, madrugada e início da manhã de domingo são ouro. Para a textura viva de feira, orla e comércio, o meio do dia entrega a riqueza, e o trabalho vira posicionamento: encontrar o ângulo em que o interessante domina e o intrusivo fica ao fundo.
Na volta, o material vira biblioteca
De volta ao estúdio, cada captação passa por limpeza criteriosa, corte dos melhores trechos e catalogação com etiquetas de local, horário e conteúdo. Gravação boa sem organização vira arquivo perdido. A biblioteca pessoal que montei nesses anos é hoje um dos meus ativos de trabalho mais valiosos, e cresce a cada projeto.